Tiradentes: Após polêmica sobre a proibição da Congada, Igreja alega incompatibilidade no sincretismo religioso e afirma que “não tem haver com preconceito”

Padre Alisson Sacramento diz que as manifestações do grupo Congada de Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia não condizem teologicamente com a fé católica e que “se é preconceito contra os negros, está sendo preconceituoso com ele mesmo”.

Uma denúncia feita pelo portal Notícias Gerais no dia 20 de dezembro expôs que o grupo Congada de Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia está proibido de fazer manifestações dentro da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no município de Tiradentes. Segundo a reportagem, a proibição já perdura por cerca de um ano e cinco meses, pelo pároco local, Pe. Alisson Sacramento. O grupo alegou discriminação e preconceito religioso, segundo a reportagem.

Em entrevista exclusiva ao portal Mais Vertentes, o Padre recém nomeado Chanceler do Bispado, Alisson Sacramento, afirmou que a restrição foi feita pela incompatibilidade do sincretismo religioso do grupo com a fé católica, e que “se é preconceito contra os negros, está sendo preconceituoso com ele mesmo”.

Ainda de acordo com a reportagem publicada pelo NG, Pe. Alisson Sacramento proibiu a entrada do Mestre Prego e sua Congada de Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.

O Mestre Prego e seu grupo respeitam a decisão da igreja, mas questionam a natureza preconceituosa da decisão.

“Correm comentários que é porque a gente usa a bandeira com a escrava Anastácia. Nós somos devotos dela porque ela foi uma escrava que tinha o dom da cura e curava muitos dos nossos irmãos nas senzalas. […] Essa é nossa história, dolorosa, não podemos entrar.”, disse o Mestre Prego em entrevista ao Notícias Gerais. Confira na íntegra.

Em entrevista exclusiva ao Mais Vertentes, o Padre e nomeado Chanceler do Bispado, Alisson Sacramento, afirmou que a decisão não foi preconceituosa e sim baseada nos sincretismos da Igreja Católica, que, segundo o Padre, são diferentes deste grupo de Congada. “Nós damos todo apoio possível às questões culturais, mas a questão deste Congado em si, tem algumas questões que estão em divergência com a fé católica”.

Padre Alisson diz que quando chegou na paróquia, questionou ao Capitão da Congada, Mestre Prego, o motivo do nome do grupo ser Congada de Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia. Segundo o Padre, a Escrava Anastácia não é cultuada pela Igreja Católica. “Para que nós tenhamos um movimento, um ritual na Igreja Católica, os santos celebrados, têm que passar pelo processo de canonização, para que tenha o seu culto aprovado na Igreja”, afirma.

O pároco diz que, mesmo que dentro da Igreja Católica não exista nenhuma “aprovação” da Escrava Anastácia enquanto santa, ela pode ser reconhecida como um símbolo de luta pela liberdade. “Nós sabemos que a escravidão foi um grande mal, não só no Brasil, mas em toda humanidade. A gente tem que combater qualquer forma de escravidão. Vivemos na busca da dignidade da pessoa humana. Então ela pode ser tida como apelo à luta pela liberdade, não posso negar de forma alguma, mas não a reconhecemos como santa”, explica Pe. Alisson.

Segundo o pároco, após a conversa com o Mestre Prego no ano passado, um advogado representando o grupo o procurou pedindo a aprovação da manifestação dentro da Igreja. O mesmo afirma que as decisões são em conjunto com a Diocese e que, neste caso, não há preconceito. “Eu sempre tive o contato direto com a Diocese e o que eu tenho feito não está nada contrário à Igreja e nem mesmo o que está mais difundido aí, que é a questão do preconceito. Não é nada de preconceito, de forma nenhuma, a começar que eu também sou negro. Se é preconceito contra os negros, então eu estou sendo preconceituoso comigo mesmo”, ressaltou Pe. Alisson.

Fonte : Mais vertentes