Igreja em Tiradentes fecha as portas para manifestação religiosa centenária de grupo de Congada

CAPITÃO CLAUDINEI MATIAS DO NASCIMENTO , MAIS CONHECIDO COMO “PREGO” FOI HOMENAGEADO COM A ” COMENDA TIRADENTES ”

Foto : Eduardo Guerra

Ana Laura Queiroz
Notícias Gerais

Desde o dia 28 de julho de 2019, as ruas e becos históricos da centenária Tiradentes não ecoam o tradicional som dos tambores da Congada de Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia.

Até então, o som característico e compassado das zabumbas e gungas, que saíam de dentro da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, era escutado por todo o centro histórico da cidade. Hoje, silenciados, os congadeiros manifestam sua fé fora de sua casa de oração e devoção.

Com as portas fechadas, os congadeiros foram proibidos de entrar dentro da igreja que seus antepassados construíram. O lamento do grupo é que a situação não se deve à pandemia que asssola o país, mas ao preconceito movido pela imagem estampada na bandeira da Congada – a da escrava Anastácia.

Há um ano e cinco meses, o padre responsável pela igreja proibiu a entrada do mestre Prego e sua Congada. Até hoje, a igreja mais antiga do município segue com suas portas fechadas para a mais tradicional manifestação religiosa do povo negro de Tiradentes.

“Por que não podemos entrar na igreja?”

Foto : Eduardo Guerra

Claudinei Matias Nascimento, de 48 anos – conhecido como Mestre Prego – é capitão e presidente da Congada de Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia. Artesão por profissão e professor de capoeira, ele dedica seu tempo ao manuseio das cabaças, bambus e cipós, que transforma em artesanato para vender na cidade. Mas sua vida mesmo, segundo ele, é dedicada a sua fé e devoção por Nossa Senhora do Rosário e pela escrava Anastácia.

Mestre Prego, descendente de escravos, vê na Congada uma forma de perpetuar a fé e a resistência de seus antepassados. Desde 2012, ele e seu grupo frequentam a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos para realizarem suas orações. Com emoção e muito respeito a instituição, ele compartilha sua tristeza:

“É um direito dele (padre Alisson), se ele acha que a gente não pode entrar… Mas é duro, na própria  igreja dos negros a gente não poder entrar para tocar nosso tambor, fazer nosso agradecimento do jeito que toda a vida foi.”

Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos

foto: Eduardo Guerra

O censo de 1808 da Vila de São José del-Rei, hoje município de Tiradentes, aponta que 69,3% da população, ali residente na época, era formada por pretos e mulatos.

Reflexo do grande número de escravos, a igreja foi levantada pelos próprios negros entre os anos de 1709 e 1719, na Rua Direita da Vila. O ouro “roubado” pelos escravos nos garimpos era trazido clandestinamente em seus cabelos e unhas e, então, inserido na ornamentação da obra.

Segundo o mestre Prego, seus antepassados mal podiam passar da porta. “Os negros somente entravam na igreja para levar os senhores até a porta e tinham que ficar do lado de fora” completa.

A riqueza inesperada da decoração guarda consigo uma série de detalhes que refletem a resistência do povo escravizado e suas tentativas de resguardar sua cultura e fé, que foram obrigados a deixar em sua terra natal. Quando observado de forma atenta, é possível encontrar símbolos das religiões africanas, principalmente do candomblé nas paredes da capela.

Ao longo do século, ela foi passando por diversas modificações e hoje é um dos pontos turísticos principais da cidade de Tiradentes e protegida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

“Se nós construímos, por que não podemos entrar?”

FOTO : EDUARDO GUERRA

Foto Eduardo Guerra

Ainda sem respostas, o Mestre Prego e seu grupo respeitam a decisão da igreja, mas questionam a natureza preconceituosa da decisão.

“Correm comentários que é porque a gente usa a bandeira com a escrava Anastácia. Nós somos devotos dela porque ela foi uma escrava que tinha o dom da cura e curava muitos dos nossos irmãos nas senzalas. […] Essa é nossa história, dolorosa, não podemos entrar.”

Único grupo de Congada de Tiradentes, ele e seu grupo mantêm a fé e seguem de cabeça erguida. Hoje, por conta da pandemia, não fazem ecoar seus tambores, mas o Mestre afirma que seguirão com seus festejos e manifestações.

“A gente não vai parar de fazer nossa manifestação não, nossa prova de resistência. Vamos continuar tocando os tambores no centro histórico. Nós não podemos fazer nossa oração na igreja, mas vamos continuar fazendo na rua”

O outro lado

Notícias Gerais entrou em contato por e-mail e telefone com a assessoria da Diocese de São João del-Rei, responsável pela Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Tiradentes, mas até o fechamento desta matéria não obteve retorno.

A redação também realizou tentativas de contato, por telefone e e-mail, com a Secretaria Municipal de Turismo, Cultura, Esporte e Lazer de Tiradentes, para ouvi-los sobre o caso. Entretanto, até a publicação desta, também não obteve retorno.

Fonte : Notícias Gerais

CAPITÃO CLAUDINEI MATIAS DO NASCIMENTO mais conhecido como Mestre Prego