
A matriz de Sant’Ana em Barroso é indiscutivelmente um cartão postal do município, uma arquitetura que há mais de meio século vem impressionando a todos que a contemplam em seus detalhes cujas obras de ampliação foram realizadas pelo padre Luiz Giarola Carlos no período de 1945-1954. No entanto, o interior da Igreja Matriz ainda revela uma beleza singular e pouco difundida: os vitrais, majestosos e coloridos. Trata-se de um Patrimônio Cultural desconhecido e desprotegido, confeccionados na Vitrais Conrado Sorgenicht em São Paulo fundado em 1889:
“A família Sorgenicht procedente da região da Renânia do Norte, uma região católica, com muitas catedrais do período alto Gótico. Conrado Sorgenicht I frequentou estas catedrais até os 39 anos, quando veio ao Brasil. Ele já trabalhou com pinturas de afrescos e vitrais, não exclusivamente para Igrejas, mas sua formação religiosa se deu nestes templos, onde o ambiente era propicio a introspecção, onde da luz diurna era filtrada por grandes vitrais. As ideias de representação de Deus na naturalização da luz colorida do vitral no interior das igrejas estavam impregnadas na memória cultural deste artesão” (MELLO: 1996 p. 28).
O pioneiro ateliê do Brasil trabalhava com vidros importados da França, Alemanha e Bélgica. Os vidros mais utilizados eram antique (macio e cheio de bolinhas) catedral com textura leve, porém com pouco brilho. Ártico mais grosso e resistente e brilhante. O processo de fabricação dos Vitrais inicia-se com a pesquisa do tema, corte do vidro, ampliação do desenho, compreende também a escolha de um tipo de vidro, as cores e a luminosidade. Outros artesões são necessários como os marceneiros, fundidores de bronze, artesãos especializados em ornatos. (MELLO :1996 p.41).
Os trabalhos produzidos pelo Ateliê da família Conrado chegaram a 600 ao longo das três gerações e além das Igrejas de Campinas, Jundiaí, São Paulo, Petrópolis, Belo Horizonte ainda possui algumas obras públicas em palácios do Governo e casas particulares. A casa Conrado desde a Primeira Guerra Mundial manteve em sua equipe artistas europeus, de modo que a influência e experiências destes artistas se fizeram presentes, sendo assim nomes como Carlos Oswald, Gomid, John Graz, Yolanda Mohalyi, A. M. Nardi, engrandecem a arte e oficio dos vitralistas .
Os Vitrais da Matriz de Barroso foram confeccionados, no período de maior produção do Ateliê, sob coordenação de Conrado III, a fábrica possuía o maior número de empregados e obras de sua História, já estava consolidada no ramo e já havia diversificado as atividades como a elaboração de objetos de decoração, painéis de mármore e restaurações de vitrais. Foi durante a festa de São Sebastião em 19 de fevereiro de 1950 que ocorreu a benção dos primeiros vitrais dos santos que estão no corpo da Igreja. Somente na festa de São Sebastião em 1953 que foram colocados os vitrais das Bem Aventuranças, e os demais durante a festa de Sant’Ana no mesmo ano.
Importante ressaltar, que assim como a construção do templo houve mobilização da comunidade paroquial, foi as famílias do lugar que concorreram com os custos e doações destes vitrais por esta razão os nomes se encontram gravados nos mesmos. “Na grande maioria das vezes, a colocação de vitrais é fruto de arrecadação de fundos através de doações, promoção de quermesses e gincanas e atividades de gênero”. Isto influi nas escolhas das representações “(MELLO: 1996 p.126) Por esta razão, prevalecem as devoções populares em detrimento da História religiosa do santo padroeiro.
No sentido “evangelístico” os vitrais que abordam as bem aventuranças trazem uma mensagem de exortação aos fiéis, os vitrais comunicam e ensinam o evangelho de Cristo (bem aventurado os que choram porque serão consolados. No coro da igreja existe um único vitral contemplando o filho pródigo sendo recebido pelo pai, aludindo ao fato de que a Igreja sempre estará com suas portas abertas. Além de santos e profetas que foram utilizados em vitrais no “corpo” da Igreja, digno de nota são os vitrais da entrada, os “Tapa Ventos” Jesus acalma a tempestade e o Anjo pisoteando o diabo, transmitem mensagem de alento e esperança aos Cristãos. No topo destes vitrais os brasões de Armas dos bispos que à época conduziam a Arquidiocese de Mariana, situando no tempo a própria história da Igreja.
Conhecer a história dos vitrais da Matriz de Sant’Ana significa resgatar um passado que não se delimita apenas na esfera do religioso, mas na valorização da arte, do bom gosto e relevância das tradições envolvidas no processo de elaboração destes vitrais de forma artesanal e artística, para além disto, revelar o entrosamento das famílias tradicionais do lugar na construção do templo principal. Os Vitrais constituem Patrimônio Cultural Barrosense e merecem mecanismos de proteção e salvaguarda, pois estão relacionados com a história da comunidade paroquial que antecede a própria instituição do município em 1954.
Relação das Famílias doadoras dos Vitrais
O filho pródigo, José Rodrigues de Melo e família (coro).
Sagrado Coração de Jesus doado por Celestino Jose Carlos e família; (corpo da Igreja).
Sagrado Coração de Maria doado por Georgina Vale Pinto e família;
Senhora Sant’Ana doado por Francisco Ferreira Filho e família;
São José doado por José Furtado e Senhora;
São Joaquim doado por José Pio de Souza e família;
Santa Isabel doado por Severino Rodrigues e família;
Profeta Davi doado por Arthur Napoleão de Souza e família;
Santa Cecília doado por Otília de Castro Meireles.
1ª bem-aventurança doada por José de Sena Ladeira;
2ª bem-aventurança doada por desconhecido;
3ª bem – aventurança doada pelo filhos de Miguel Graçano;
4ª bem-aventurança doada por motoristas;
5ª bem-aventurança por Argemiro Campos;
6ª bem- aventurança doada por José Pio de Souza;
7ª bem- aventurança doada por Maria Augusta Meireles e Maria Do Carmo Meireles;
8ª bem- Aventurança doada por João Gualberto Furtado.
Na entrada do templo os vitrais Jesus acalma Tempestade foi doado por Brasilino dos Reis Melo;
São Miguel Arcanjo doado por Francisco Pinto da Silva e Antônio Moreira de Melo;
Anjo da Guarda doado por Joaquim Gabriel de Souza.
Capela do Santíssimo: Anjos e demais representações litúrgicas: Edgar Lemos Duarte e senhora; Joaquim Ferreira e família; Vinício Mauro e Senhora e Geraldo Napoleão de Souza e Família.
Livro de tombo da Paroquia de Santana do Barroso;
MELLO, Regina Lara Silveira. Casa Conrado: Cem Anos do Vitral brasileiro. Campinas, 1996 (dissertação de mestrado UNICAMP.
Informações historiasdebarroso.blogspot.com



