
Por Marcos Magalhães de Souza ( Biólogo)
Introdução
A proteção do meio ambiente é um desafio em todo o Brasil, seja em grandes ou em pequenas cidades. Muitos dos problemas enfrentados pelos brasileiros nos dias de hoje são heranças de anos e anos de degradação e agressão a natureza, que teve seu inicio nos primórdios da colonização portuguesa.
A cidade mineira de Barroso, situada no Centro Sul do estado de Minas Gerais, microrregião do Campo das Vertentes, com uma população em torno de 24 mil habitantes, possui uma longa e particular História de relação destruidora com seus recursos florestais, restando, hoje poucos fragmentos de vegetação nativa.A região do Campo das Vertentes está sob influência do cerrado, que é o segundo maior Bioma Brasileiro, aproximando 20 % do território nacional. O cerrado é altamente heterogêneo, com formação de matas de galeria, mata mesofítica (incluindo as matas semi e subcaducifólias), cerradão e, cerrado denso, cerrado ralo, cerrado típico, campo sujo, campo rupestre, campo limpo e Veredas (Ribeiro et al., 1983) Também se encontram áreas de Cerrado em regiões do Alto Paranaíba, ocupando relevo plano, ou suavemente ondulado (Mendonça e Lins, 2000).
Apesar da riqueza e diversidade do cerrado, esse bioma encontra-se ameaçado com cerca de 70 % de sua área alterada pela ação humana, caudada pela atividade da pecuária, pela retirada da madeira para o carvão, pela agroindústria e pelo reflorestamento com arvores exótico. Como resultado, 30 % das aves e mamíferos ameaçados de extinção em Minas Gerais se encontram nesse bioma, num total de 37 espécies (Machado et al 1998).A partir dessas considerações, o objetivo deste trabalho foi retratar a vegetação original do município de Barroso e áreas próximas, apresentando alguns impactos de algumas atividades econômicas sobre os recursos florestais, bem como relacionar os fatos ocorridos no presente e os trabalhos recentes desenvolvidos para conservação da fauna e flora.
2. Metodologia
O período de estudo foi de junho de 2004 a maio de 2005. A fim de obter dados históricos do desenvolvimento econômico e da vegetação nativa do município de Barroso, bem como de áreas próximas, foram realizados levantamentos bibliográficos, analise de documentos antigos, consulta aos arquivos da Câmara de Vereadores de Prados, em função de Barroso ter sido distrito desse município e consulta ao Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais – IEPHA- na pessoa de Ana Maria de Souza (Barrosense).
Entretanto, existem poucos registros escritos, sendo necessária a utilização de uma metodologia de entrevistas para enriquecer o texto que se segue, a fim de proporcionar uma leitura e uma reflexão mais claras dos fatos. O critério de seleção dos entrevistadores foi definido pelo historiador Geovani Eugênio Paceli da Silva, que se ateve a pelo menos um dos seguintes aspectos: cidadão ligado a ferrovia, por exemplo, ex-ferroviário, proprietário de alguma caieira em atividade; proprietários de alguma área com remanescentes florestais, trabalhadores que participaram da atividade de extração de madeira e pessoas conhecedoras da História de Barroso. Para obtenção de informações científicas da flora e da fauna atuais, foram analisados artigos científicos e uma dissertação de mestrado (Souza, 2005; Neto et al 2004; Oliveira Machado, 1993).
3. Resultados e discussões
Para se ter uma ideia de como era a vegetação anterior ao inicio do processo intensificado de desmatamento, ocorrido entre as décadas de 30 e 60 do século XX, os relatos de Saint Hilaire (1830/2000, 1833/1974) e Burton (1868) elucidam de alguma forma a beleza dos campos, das matas nos vales e das matas ciliares que acompanhavam o Rio das Mortes.
3.1. Barroso sob olhar de um naturalista Francês (Século XIX)
Em duas ocasiões, 1818 e 1822, Barroso teve o privilégio da visita de um dos maiores naturalistas do mundo, o francês Augusto de Saint Hilaire (1799-1853) professor de botânica da Faculdade de Ciências em Paris.Entre os anos de 1816 e 1822, período em que viajou e conheceu boa parte do Brasil, foi responsável por umas coleções zoológicas e botânicas de sua época. Mais de 6.000 espécies de plantas foram coletadas, sendo que a maior parte nunca tinha sido descrita até então pela ciência, além de 2.000 exemplares de aves e 16.000 insetos, proporcionando a publicação em 1825 do celebre livro Flora Brasília Meridionalis.Em sua primeira visita a Barroso, em 1818, Viagem pelo distrito dos diamantes e litoral do Brasil, publicado em 1833, destacam-se dois textos. O primeiro descreve a vegetação e a geografia física próximas a Barbacena:Ora montanhosa, ora ondulada, a região que percorri em um espaço de 8 a 10 léguas, de São José a Barbacena, deve naturalmente ir se elevando cada vez mais, pois se vai aproximando da serra da Mantiqueira, a altitude torna-se tal que na Fazenda do Faria, vizinha das nascentes do Rio das Mortes, onde parei antes de entrar na grande estrada de Vila Rica ao Rio de Janeiro, o frio dos meses de julho a agosto não permite a plantação de bananeira. Em toda região, o cimo dos montes é arredondado, o terreno nessas alturas é arenoso ou pedregoso, os campos apresentam pastagens naturais com gramíneas, mas nas grotas existem tufos de matas, sendo essas partes aproveitas para a lavoura p.116.
Nesse texto, percebe-se a descrição dos campos de altitudes e campos sujos ,bem como o impacto causado pela agricultura sobre áreas de matas , juntos aos recursos hídricos (matas de ciliares e matas de galeria) vegetação que o autor não diferenciou. A mata ciliar é uma vegetação que segue os cursos de água, sendo que algumas plantas são caducifólias (perdem as folhas uma época do ano) e sempre se observa o curso de água, o que não acontece na mata de galeria, pois a vegetação forma um túnel e é sempre verde. No segundo texto, tem-se:
O Sol ainda não se tinha desaparecido quando, após ter me instalado na fazenda do Barroso, terminei meu trabalho cotidiano. Aproveitei o tempo que me sobrava para ir arborizar a pouca distancia da habitação, à margem de um brejo. A descoberta de algumas belas plantas compensou-me das insignificantes coletas que fiz nas pastagens e nas colinas. Entretanto observei que nesses lugares os brejos apresentam uma vegetação menos variada do que as que da Europa p.117 O autor relata a baixa diversidade das pastagens, por ser uma área de forte pressão antrópica. Também faz um comentário sobre o trabalho diário de um botânico, que consiste em coletar material vegetal para identificação, no caso de plantas produtoras de flores (fanerógamas), coletam-se folhas e frutos e principalmente flores o que é de fundamental importância na taxonomia. Posteriormente, o material é fixado entre jornal e papelão (uma prensa) para que possa secar em estufa, evitando a ação de fungos. Finalmente anotam-se características da planta, como a coloração, altura, hábito e outros.O relato da segunda visita a Barroso, em 1822, estão reunidos no livro intitulado Segunda Viagem ao Rio de Janeiro, a Minas Gerais e a São Paulo, publicado em 1830. Destacam-se duas passagens durante o caminho de Barroso a São João del Rei que se seguem:
Tomamos o [caminho] que leva a São João Del Rei. Terreno montanhoso, pastos altos; capões de mato nas baixadas. Antes de Barbacena, era mato alto em geral, mais comum do que os pastos. Depois desta cidade dá se o contrario (…) Entre Barroso e Elvas , encontrei , com espanto , nas encostas altas mas pequenos espaçosos, a vegetação dos tabuleiros cobertos , isto é das arvores esparsas, enfezadas , tortuosas , de casacas encortiçadas , com folas duras e quebradiças p.76
Nos dois textos, o autor descreve o que se conhece, hoje por campo cerrado, com predomínio de arvores tortuosas e gramíneas. Faz alusão ao que se conhece por conjuntos florestais no cerrado, a mata semidecidual, vegetação em que parte das plantas perde uma parte das folhas num período do ano (inverno-estação seca) Também, pela descrição, se percebe o predomínio de pastos entre Barroso e São João Del Rei, possivelmente causado pela atividade pecuária e pela exploração de ouro no período colonial.
Em outro livro, Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais, publicado em 1830, o autor descreve mais uma vez os campos de altitude próximos a Barbacena e a transição entre os campos, provavelmente do campo do Cerrado, e áreas de mata, descritas de grande beleza, entre Juiz de Fora e Barbacena e que hoje também quase desapareceram.
3.1.2 O Consul Inglês
Além do naturalista francês, o capitão Richard Francis Burton, cônsul da Inglaterra em Santos, empreendeu em 1868 uma ousada navegação pelo Rio São Francisco, repleta de aventuras registradas num diário, com observações da maior acuidade acerca da natureza e da população ribeirinha. Nele, descreve também a atividade mineradora que alavancaria o desenvolvimento econômico de Barroso, porém à custa do desaparecimento de boa parte da vegetação nativa.Seguem-se passagens de descrição do trajeto de Barbacena a Nosso Senhor do Bom Jesus do Matosinhos do Barroso, atual cidade de Barroso, e daí até São João del Rei. Chegando a Barroso, Burton descreve:
Sentia-se em toda parte o brilho do capim angola (panicum altisimumm) das rosas e da Poinsettia, cujas esplendorosas brácteas vermelhas, sempre o tom mais forte na pintura, dominavam o conjunto e iluminavam como lâmpadas ás das flores mais tímidas. A vegetação do vale fica entre a Inglaterra e a da Índia, desde o salgueiro chorão, o cacto da Sicília, a laranjeira, a palmeira, até a bananeira, o cafeeiro e a cana de açúcar.
Em outra passagem, observa-se:
Em um solo de matas, sobre um leito de carbonato de cálcio, ocorre um pequeno rio Caieiro, afluente do rio das Mortes. Este dolomito, que cobre dezesseis léguas quadradas é vendido por $280 a $320 réis o alqueire em Barroso. É bom para fins de construção e cal morta alcança de $2000 a $3000 em Juiz de Fora
Nesse trecho, o inglês evidencia a atividade de exploração de calcário para produção de cal, o que se tornaria no século XX a fonte de riqueza de Barroso. O autor traz uma abordagem da atividade de produção de cal, que como veremos terá papel decisivo na vida econômica e no meio ambiente de Barroso. No primeiro texto, tem se a descrição do campo de cerrado, que apesar de aparentemente pouco diverso e seco, sempre se mostra como uma floricultura a céu aberto aos olhos mais sensíveis ou técnicos.
Em outros trechos do livro, como no capitulo IV, o cônsul inglês descreve de forma bem clara o bioma cerrado, bem como o problema das queimadas , que empobrece o solo, causa assoreamento de córregos e destrói a fauna e flora, fato que se tornou mais comum nas ultimas décadas em Minas Gerais , seja para formação das pastagens ,seja pra produção de carvão e cultivo de monoculturas.
3.1.3 A Ferrovia
Em 1879, foi assinado o convênio para a construção da Estrada de Ferro Oeste de Minas, que passaria a ligar a cidade de São João del Rei a Barbacena (Souza 1979) e que esteve em atividade até meados dos anos 80 do século XX. Essa obra trouxe, indiscutivelmente, muitos benefícios e melhorias para Barroso. Entretanto, essa atividade também gerou impacto sobre a vegetação local.
Primeiramente, pelo fato de ter sido construída as margens do Rio das Mortes, passou a ocupar lugar da mata ciliar. Em segundo lugar, existia um consumo de madeira para a construção da Estrada de Ferro e para alimentar a locomotiva. O documento que comprova isso é o relatório da Companhia de Estrada de Ferro da Oeste de Minas – 1879 (Arquivo Mineiro) no qual cita o fornecimento de 70 mil dormentes de 1,40 m x 0,18 m x 0,12 m, de novembro de 1879 a julho de 1880, sendo que as madeiras para os dormentes foram, entre outras: Angelim pedra, arco de pipa, braúna, peroba, (Aspidoperma ssp) canela (Nectandra spp) ipê (tabebuia spp,) sapucaia (Lecythis spp). A maior parte delas foi retirada das matas locais e nativas, como relatados em entrevistas citadas ao longo desse texto.
Imagine o que isso gerou de impacto sobre a vegetação? É necessário ressaltar que não se está aqui fazendo um julgamento sobre o que era correto ou errado e apontando essa ou aquela atividade como vilãs, mas apenas prendendo-se aos fatos e apresentando-os para que o leitor faça analise do que aconteceu, do que repercute no presente e do que pode ou não acontecer no futuro.
3.1.1 Progresso x Natureza (Século XX)
Barroso teve seu desenvolvimento econômico fundamentado em dois pilares: na indústria de cal, que em meados do século XX tinha uma produção enorme, levando o município a ser o maior produtor do Estado de Minas Gerais, e também na indústria cimenteira, que começou sua produção em meados dos anos 50 do século passado.Para se ter uma ideia da força das caieiras, seis documentos são importantes. O mais antigo é o documentado datado de 1831, dirigido ao Governo da Província de Minas Gerais, demonstrando que há mais de 150 anos Barroso já produzia cal (Souza 1979). O segundo consta de uma época em que Barroso ainda pertencia à cidade de Prados MG. Nele, observa-se o desentendimento entre dois fazendeiros, sendo um deles proprietário de uma fábrica de cal, como se segue:
Foi apenas um requerimento do cidadão José Caetano Monteiro, fazendeiro morador na freguesia de Sant’Ana do Barroso, município de Prados, o qual tem tirado e tira constantemente pedras de uma pedreira que está em terreno seu; mas para a condução das ditas pedras à sua fábrica, existiam dois caminhos, um particular e outro público, e tendo-se o suplicante servido sempre do caminho particular, por ser este o mais commodo e melhor, hoje lh’o é prohibido por Theofhilo Lopes da Silva, seu confrontante, que tendo no leito do caminho uma ponte que de um lado pertence ao suplicante e do outro ao suplicado, este mudou a dita ponte para a pequena distancia com o fim de recua-la do terreno do suplicante, sendo que este caminho é antiguíssimo e que já se serviam d’elles o seus antecessores, moradores desta fazenda. Em vista deste requerimento resolveu a Câmara que se oficiasse ao fiscal interino do Barroso para ir ao lugar e decidir o que for de direito e justiça (Câmara Municipal de Prados LV 1 p. 5 04/02/1891).
No terceiro documento (lei municipal nº8), lê-se:
O Cel José Manoel Montes Presidente chefe da Câmara Municipal de Prados Faço saber que a Câmara Municipal de Prados Decretou e eu sanciono a seguinte lei: .Art. 1º A cal que tiver carga e descarga na Estação de Prados pagará somente 10 réis de imposto por cada saco (livro de Leis da Câmara Municipal nº26 de 05/06/1894)
O quarto texto é o Anuário do Estado de Minas Gerais e IBGE – 1937 publicado em 1939 em que se relacionam quatro caieiras, além de duas olarias. O quinto é o documento datado de março de 1953, escrito por Geraldo Napoleão de Souza. Nele estão registrados 18 grandes caieiras e foi encaminhado para Belo Horizonte, tendo como objetivo a emancipação politica do município, que aconteceu em 12 de dezembro de 1953, a qual teve como redator o primeiro prefeito deste documento.
E por fim, o Anuário de Minas Gerais e Federação das Indústrias do Estado de 1965, que registra sete caieiras, numero que no município subiu para 17 em 1972. É importante ressaltar que, apesar de haver registros da produção de cal desde o século XIX, como descrito em 1831 e também por Burton em 1868, foi somente em 1926 que se teve uma caieira como organização industrial (Souza, 1979).
Essa atividade parece ter sido importante na geração de empregos diretos e indiretos para um numero significativo de trabalhadores barrosenses. Além da atividade das caieiras, Geraldo Napoleão em seu livro publicado em 1979, também evidencia a importância das cerâmicas e olarias, bem como a indústria cimenteira, que estudos mais específicos demonstrariam ser um dos fatores que explicam o crescimento muito rápido da população, baseado em imigrações a partir de 1951 com a construção da fábrica.
Faz-se necessário esclarecer ao leitor que, para que houvesse a produção de cal, retirava-se da natureza o calcário, e este era levado a um forno para que ocorresse a transformação no produto em questão. Os fornos eram aquecidos diariamente a lenha, boa parte proveniente das matas nativas.
Na primeira entrevista realizada o senhor Daniel Costa, nascido em Barroso e ex-presidente do Conselho de Defesa do Meio Ambiente – CODEMA (2001 a 2003) relata fatos importantes ligados a ferrovia e á extração de madeira para as caieiras. Segundo ele, a produção de cal em Barroso era muito grande e a demanda era sempre crescente, principalmente pelos grandes centros urbanos. Nos anos 40 e 50 do século passado, havia em torno de 50 fornos de atividade, além de olarias, cerâmicas e ferrovia. Em todas estas atividades, usavam-se fornos aquecidos à madeira retiradas inicialmente das matas locais.
A produção consumia uma grande quantidade de madeira, o que provocou a destruição total de uma mata conhecida como “Mata da Onça” localizada na divisa com o município de Dores de Campos e da “Mata Capoeira Grande” próxima ao bairro da Praia, também explorada pela indústria cimenteira e a “mata da fazenda do Banco”, próximo ao Município de Prados. Além do uso de madeira nas caieiras, Olarias e cerâmicas, a Locomotiva a vapor consumia uma quantidade enorme de madeira por dia próxima a 14 metros cúbicos de madeira por viagem, inclusive com três pontos de deposito ao longo do trecho de São João del Rei a Antônio Carlos, e segundo o entrevistado, a locomotiva realizava 20 viagens diárias.
O entrevistado também ressalta que o consumo doméstico era muito grande, visto que fogão a gás não era comum nas residências dos Barrosenses. Muitos dos relatos apresentados pelo senhor Daniel Costa foram comprovados em outras entrevistas, como a que foi realizada com o senhor Joaquim Ribeiro de Avelar, morador em Barroso desde 1951. Além das áreas citadas na entrevista anterior, outras matas também foram exploradas, como a mata da fazenda do Júlio Pinto, situada na saída de Barroso, em direção a Barbacena. Esta se ligava ao atual fragmento florestal conhecido como “mata do Catete” a “Mata da Boa Vista” e ao ultimo grande fragmento do Município a mata do Baú que perfazia o total de aproximadamente 12 Km² e que hoje não é nem sombra do que foi no passado.
O senhor Joaquim também descreve a exploração de madeiras como jatobá (hymenaea courbaril l) e as do jequitibá (Cariniana estrellensis (Raddi) Kunte). O impacto não foi somente sobre a vegetação, mas consequentemente sobre a fauna, com a morte de serpentes e grandes felinos, como a onça parda etc. Informações também fornecidas pelo Senhor Daniel Costa. Numa terceira entrevista realizada com o senhor Iclair Graçano, nascido em Barroso e atual proprietário da única caieira ainda em atividade em Barroso, repetem-se os nomes das matas já citadas anteriormente, além da mata da Boa Vista localizada junto ao povoado da Boa Vista. Aqui tem-se um relato de um fato interessante; para queimar 112 toneladas de cal em 72 horas, gastavam-se 72 horas, gastavam-se 130 metros cúbicos de madeira como jacarandá (Machaerium spp) e pau óleo (Copaifera langsdorfffi desf.) e para se ter um calculo melhor, essa quantidade equivale hoje a seis caminhões Mercedes 1313 carregados (aproximadamente 15 toneladas).
Na quarta entrevista realizado com o professor e poeta Paulo Terra também foram citados todas as matas já mencionadas, acrescentando-se que a “mata da Onça” hoje destruída, ocupava toda a área que ia do povoado da Caetés, até o bairro Jardim Europa. Por fim, foi o único que abordou causa da decadência das caieiras, entre elas, ironicamente, o uso crescente do cimento na construção civil, atividade que foi o outro pilar do crescimento econômico de Barroso.
Em todas as entrevistas, há um consenso de que as atividades das caieiras, olarias e cerâmicas foram as responsáveis pela destruição ou alteração da vegetação nativa. Ressalta-se que naquela época, as leis ambientais não claras ou aplicadas, mas principalmente não havia uma preocupação com a questão ambiental. As pessoas não consideravam tal atitude prejudicial ao meio ambiente e não tinha uma noção exata do reflexo que tal comportamento traria no futuro.
Pelo exposto, a vegetação original foi extremamente modificada, sendo hoje representada por poucos fragmentos, como a Mata do Baú e Mata da Boa Vista, Mata do Catete, Morro do Morcego, Cachoeira do Padeiro, além de pequenos remanescentes de mata ciliar do Rio das Mortes e que por isso devem ser preservados, sendo necessários investimentos em projetos de pesquisa que visem ao conhecimento da flora e da fauna, a fim de se tratarem estratégias corretas para a conservação.
A destruição de Cerrado, também ocorreu e ainda ocorre em várias áreas do Estado de Minas Gerais, em função de diversos aspectos. No triangulo mineiro, as regiões de cerrado outrora expressivas foram substituídas por lavoura de soja de milho, estando hoje restrita a áreas não mecanizadas. No sul do Estado, apenas porções encravadas nas encostas montanhosas ou áreas planas esparsas resistem entre pastagem e culturas distintas.
A sudoeste, ainda há áreas mapeáveis. Ao lado da cultura cafeeira (Carvalho 1993). Na região noroeste, a soja já ocupa mais da metade das áreas anteriormente cobertas pelo cerrado, que persistem também em localidades de declive acentuado. Ao Norte, há áreas pouco significativas no domínio da Caatinga. No Nordeste e Sudeste, o cerrado foi substituído por áreas de pastagens e culturas de café e cana (Mendonça 2000).
3.3.1 Mata do Baú – ultimo fragmento florestal (Século XXI)
A mata do Baú situada entre o povoado da Boa Vista e Rio das Mortes, numa região conhecida como Olaria, consiste hoje no último e maior fragmento de matas e campos relativamente conservados, perfazendo uma área total de 4 km², com muitas nascentes e córrego da Olaria, afluente do Rio das Mortes.
Essa área pertence à família Melo, desde o inicio do século XX. Segundo o Senhor Pedro Paulo de Melo, um dos proprietários, nascido em Barroso, houve um grande corte de madeira nos anos 60 do século passado, com a finalidade de abastecer caieiras. Para o entrevistado. O declive acentuado e distancia entre a área e a cidade tornaram inviável a retirada da madeira, o que conservou a mata até hoje, além da crescente preocupação dos proprietários atuais em conserva-la.
O proprietário comentou sobre animais já observados na área, como jaguatirica, ouriço ou porco espinho, veado, cachorro do mato, onça parda, jacu, inhambu e vários outros, o que é considerando um dado valioso para estudos futuros, que podem e devem ser realizados na área. Apesar de não ser uma área muito grande, despertou o interesse dos biólogos da cidade de Barroso para realizar estudos com a fauna e flora, a fim de gerar subsídios para conservação da mata. De 2001 a 2003, realizou-se um levantamento florístico, isto é, um trabalho para identificar as plantas que existem na mata. Coordenado pelo biólogo Leandro C. Assis de Souza contou com apoio do biólogo Marcos Magalhães de Souza, além da participação de cidadãos da comunidade, da Universidade Federal de Juiz de Fora e da Fábrica de Cimento Holcim Brasil S. A e de pesquisadores de diversas instituições nacionais e internacionais, como universidades e jardins botânicos.
Todo esse esforço gerou um catalogo fotográfico e uma lista com mais de 500 espécies de plantas produtoras de flores sendo 13 ameaçadas em algum grau de extinção e dos primeiros registros de ocorrência no estado (Neto et al 2004) entregue a Holcim entidade financiadora do projeto. Mais tarde, de 2003 a 2004, mais um trabalho cientifico foi realizado, dessa vez um levantamento das espécies de vespas sócias, insetos conhecidos como marimbondos, coordenado pelo Biólogo Marcos Magalhães de Souza com apoio da UFJF e Holcim, registrou 38 espécies, grande biodiversidade, incluindo quatro novos registros para o Estado de Minas Gerais, sendo duas destas típicas de Mata Atlântica, evidenciando a influencia desse bioma na área estudada (Souza, 2005).
Cria-se, portanto a expectativa de novos trabalhos, como o levantamento de outros grupos de insetos, de mamíferos, aves etc. Todo esse esforço tem como objetivo que essa área seja protegida e no futuro próximo seja área de conservação (UC) segundo interesse dos proprietários e utilizada de forma sustentável, por exemplo, com a implantação de eco turismo na área. De acordo com o Ministério da Indústria, do comércio e do Turismo, do Ministério do Meio Ambiente e da Amazônia Legal, o Ecoturismo é conceituado como o segmento da atividade turística que utiliza de forma sustentável o patrimônio natural e cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista através da interpretação do meio ambiente, promovendo o bem estar das populações envolvidas (Moraes, 1996).
Portanto, essa modalidade de turismo baseia-se no desenvolvimento sustentável, que pode ser definido como sendo uma forma de se utilizar os recursos naturais, garantindo às futuras gerações a utilização desses mesmos recursos (Viana et al 2001). Os objetivos do turismo sustentável são o de promover o desenvolvimento equilibrado, melhorar a qualidade de vida das comunidades locais, assegurar a qualidade da experiência dos turistas e manter a qualidade do meio ambiente. Contudo o turismo ecológico deve ser muito bem planejado, sendo determinada a capacidade da capacidade de carga através de programa de manejo, caso contrario, a atividade turística pode proporcionar uma serie de problemas como a degradação ambiental.
3.3.2 Rio das Mortes
O Rio das Mortes nasce no distrito de Senhora dos Remédios, Barbacena –MG e percorre 25 municípios , no total de 278 km², na microrregião do Campo das Vertentes , centro sul do Estado de Minas Gerais, e é um dos principais afluentes do Rio Grande formador da bacia do Paraná, com sua bacia hidrográfica de 6.628 km²(Projeto Rio Limpo, 2005). Hoje, esse rio apresenta suas águas comprometidas por dejetos de várias naturezas, como o lixo urbano, os esgotos, os agrotóxicos, as garrafas plásticas e os produtos químicos lançados comumente pelas cidades da região, que não contam com ETEs (estação de tratamento de esgoto) e industriais que ainda não se adequaram à legislação ambiental. Todo esse material poluente tem causado vários efeitos nocivos ao equilíbrio ambiental, provocando constantemente mortandade de peixes e poluindo os mananciais hídricos existentes (Projeto Rio Limpo, 2005). Além disso, a destruição da mata ciliar é outro fator importante que compromete não só o ecossistema aquático, mas toda biodiversidade associada a essa formação vegetal. Contudo essa vegetação hoje em Minas está reduzida a capões esparsos (Mendonça e Lins, 2000).
A mata ciliar se desenvolve em torno de um curso de água e é de fundamental importância para conservação de recursos hídricos, pois reduz a erosão das margens, serve de fonte de alimentos, assegura a perenidade das fontes, protege os rios dos impactos do transporte de defensivos, corretivos e fertilizantes, aumenta a quantidade e melhora a qualidade das águas, enriquece a biodiversidade regional, serve de corredor ecológico, purifica o ar, embeleza o ambiente e melhora a qualidade de vida (Projeto Mata Ciliar, 2005).
Em Barroso, a situação dessa vegetação é critica, em razão do que já foi exposto neste artigo. Mesmo após a desativação da ferrovia e declínio das caieiras, o desmatamento continuou , seja para formação de pastagens ,seja para extração de areia de forma irresponsável e cultivo de monoculturas. No intuito de se conhecer a fauna e flora da mata ciliar do trecho do município e traçar estratégias de recuperação, iniciou-se em 2005 o projeto intitulado “Diversidade das Vespas sociais (Hymenoptera, Vespidae) e substratos vegetais utilizados para nidificação da mata ciliar do Rio das Mortes, no município de Barroso” coordenado por Marcos Magalhães de Souza, contando com a participação de um grupo de técnicos em meio ambiente, o professor doutor Fabio Prezoto (UFJF) e o Herbário da UFJF. O projeto é financiado em parte pela empresa Holcim.
Além desses estudos, vem ocorrendo uma crescente preocupação ambiental em Barroso, através de ONG’s como a Comunidade Alternativa ASBAN, de pescadores do programa de Educação Ambiental da Holcim, o Educando Verde nas escolas e a criação do Conselho de Defesa do Meio Ambiente CODEMA. Contudo, isso é apenas o inicio. Ainda não se tem uma Secretaria de Meio Ambiente em funcionamento, o CODEMA não possui verba, não se tem uma politica pública definida, os investimentos são inexistentes excluindo os investimentos da multinacional Holcim, e de uma forma, ainda impera um discurso sem fundamentos ou ações tendo-se claramente uma “demagogia ambiental”.
4. Considerações finais
A beleza dos campos e matas narrada no século XIX parece uma ficção, um quadro surreal, pois, no decorrer dos últimos 200 anos, foi modificada em função das atividades econômicas desenvolvidas no município de Barroso, o que, de outras maneiras, também ocorreu e ocorre de forma intensa em todo o Brasil. Restam algumas áreas como a mata do Baú, fragmentos da mata ciliar e outros que devem ser amplamente estudados, a fim de se conhecer e proteger a biodiversidade ameaçada pela ação antrópica. A implementação de uma politica ambiental clara e objetiva deve ser adotada para que os fragmentos remanescentes sejam protegidos, recuperados e utilizados de forma sustentável.
O modelo econômico, agressivo à natureza realizado em Barroso, bem como em boa parte do planeta, deve ser gradualmente substituído por práticas e modelos que se baseiam no respeito ao meio ambiente. Não é possível retroceder no tempo, mas é plausível pensar que outros pesquisadores e barrosenses tenham a possibilidade de visualizar uma amostra do que Saint Hilaire e Burton tiveram há 200 anos atrás.
Adaptado . Publicado na Revista Vertentes , São João del Rei n.27 p. 16-26 jan/jun 2006
Referencias Bibliográficas
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Por Marcos Magalhães de Souza ( Biólogo)



