Cientista que ajudou a eliminar sarampo e rubéola do Brasil está na linha de frente contra Covid

A chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz recebeu, em 2016, o certificado da eliminação da rubéola e do sarampo no Brasil pela Organização Panamericana de Saúde.

“Nós temos que entender que estamos lidando com uma doença de transmissão respiratória. Vamos pegar a história do sarampo — sarampo também tem transmissão respiratória. Ou você tem altas coberturas vacinais, ou você não controla.”

Quando a experiente cientista Marilda Siqueira, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), fala em “alta cobertura vacinal”, no caso do sarampo, significa ter mais de 95% da população-alvo imunizada.

Hoje, quando o país vive o pior momento desde que a pandemia começou, um ano atrás, cerca de 3,75% dos brasileiros receberam a primeira dose da vacina contra a doença causada pelo Sars-CoV-2.

Marilda com quadro da campanha contra sarampo que fica em sua sala: 'Brasil foi luz no fim do túnel para outros países' — Foto: Vinicius Ferreira/IOC/Fiocruz/Via BBC
Marilda com quadro da campanha contra sarampo que fica em sua sala: ‘Brasil foi luz no fim do túnel para outros países’ — Foto: Vinicius Ferreira/IOC/Fiocruz/Via BBC

Para achatar a curva que contabiliza os números diários de novos casos e óbitos por Covid-19, o país precisa ter acesso a um volume maior de imunizantes, ao mesmo tempo em que a população “faz sua parte” para evitar a disseminação do vírus, diz a especialista, que há um ano participa ativamente dos esforços da comunidade científica brasileira para barrar o avanço do coronavírus.

“Não adianta a gente entrar com um programa de vacinação se a população não ajuda. Pode demorar muito pra gente ver a situação controlada.”

Cobertura de uma série de vacinas vem caindo entre os brasileiros nos últimos anos — Foto: Marcelo Camargo/Ag. Brasil/Via BBC

 

 

 

 

 

 

A chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) fala com conhecimento de causa: em 2016, junto com outras três autoridades, ela recebeu o certificado da eliminação da rubéola e do sarampo no Brasil pela Organização Panamericana de Saúde (Opas), braço da Organização Mundial de Saúde (OMS) nas Américas.

O trabalho começou 24 anos antes, com uma ampla campanha de vacinação em 1992, quando o sarampo matava no mundo cerca de 2,5 milhões de crianças, um número próximo ao número de vítimas do Sars-CoV-2 em um ano de pandemia.

“A gente conseguiu imunizar 96% da população-alvo, que eram crianças menores de 14 de idade, em um mês e pouco. Foi um sucesso absoluto.”

De um ano para outro, o número de casos notificados no país caiu 81%, de 42.934 em 1991 para 7.934.

A maior campanha de vacinação do mundo

Marilda trabalhou na vigilância laboratorial e epidemiológica do programa, à frente do Laboratório de Vírus Respiratórios. A coordenação da força-tarefa, ela frisa, ficou a cargo do Programa Nacional de Imunizações, o PNI, ligado ao Ministério da Saúde.

Naquela época, a cientista fazia o doutorado em Microbiologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

País perdeu certificado de eliminação do sarampo em 2019 — Foto: Valter Campanato/Ag. Brasil/Via BBC
País perdeu certificado de eliminação do sarampo em 2019 — Foto: Valter Campanato/Ag. Brasil/Via BBC

Formada em Farmácia e Bioquímica pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), a paulista de Catanduva se mudou para o Rio de Janeiro no fim dos anos 1970 para fazer a especialização em Microbiologia e Imunologia e o mestrado em Biologia Parasitária na Fiocruz.

No início dos anos 1990, o mundo já havia conseguido erradicar a varíola, e as Américas tinham feito um bom trabalho no controle da poliomielite.

“A pergunta que se fez então foi: qual seria a outra doença que tem impacto sobre a saúde das populações e para a qual há boa vacina? O sarampo.”

O Brasil fez a maior campanha de vacinação do mundo até então — imunizou 48 milhões de crianças e adolescentes entre de 22 de abril e 25 de maio de 1992 — e virou modelo.

O laboratório de Marilda passou a treinar equipes de outros países e a disseminar a metodologia baseada no tripé de ampla imunização e vigilância laboratorial e epidemiológica.

'O individual interfere no coletivo. Essa noção tem que estar clara para as pessoas' — Foto: Josué Damacena/IOC/Fiocruz/Via BBC
‘O individual interfere no coletivo. Essa noção tem que estar clara para as pessoas’ — Foto: Josué Damacena/IOC/Fiocruz/Via BBC

Eu lembro que um ano ou dois depois fui ao Uruguai a convite do Ministério da Saúde para dar uma palestra lá — algo mais relacionado a questões laboratoriais, mas apresentei gráficos de questões epidemiológicas. Quando falei que tínhamos vacinado 48 milhões de crianças menores de 14 anos de idade, várias pessoas da plateia me interromperam e pediram que eu repetisse o número — a população do Uruguai era de 3,5 milhões”, ela recorda.

“Para muitos países essa estratégia utilizada pelo Brasil foi como se acendesse uma tocha, um raio de luz no final de um túnel.”

A ideia era que, se um país de grande extensão territorial, socialmente desigual, com cidades em locais remotos, outras densamente povoadas e com favelas conseguiu fazer um programa de vacinação em massa, outros também conseguiriam.

“Foi muito bonito. Fico até emocionada quando me lembro.”

Além da ampla divulgação — com o objetivo de sensibilizar a população em geral, a classe política e os profissionais de saúde —, o plano de eliminação do sarampo contou com campanhas nos anos seguintes para eliminar o volume de crianças ainda suscetíveis à doença.

Ao mesmo tempo, contava com uma vigilância epidemiológica intensiva dos casos suspeitos e com o diagnóstico de todo caso suspeito notificado, para que as autoridades de saúde pudessem se antecipar a eventuais surtos e terem tempo de agir para evitar uma piora do quadro.

Um trabalho parecido foi feito com a rubéola, levando em consideração as particularidades da doença. A vacina era dada em conjunto com a do sarampo, com a dupla viral ou a tríplice viral, que também protege contra caxumba.

O país recebeu o certificado de eliminação em 2016 — mas acabou perdendo três anos depois, em 2019, em parte pela queda expressiva da cobertura nacional.

Em 2017, conforme os dados do Programa Nacional de Imunizações (PNI), o percentual de imunizados nos grupos-alvo chegou a 83,8%. No ano seguinte, houve surtos em diversos Estados, com um volume total de mais de 10 mil casos.